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segunda-feira, 7 de maio de 2018

A demência aterroriza...




O que mete medo,
não é envelhecer...

Envelhecer é um processo natural,
que aceitamos por natureza.
Vamo-nos habituando à imagem no espelho...
hoje o cabelo mais branco, amanhã uma ruga,
depois a pele seca, as manchas do sol,
os músculos cada vez menos firmes
e as peles mais flácidas.

O físico vai mudando num processo continuo
e um dia tomamos consciência que estamos mais lentos,
que já só corremos quando é preciso,
que gastamos mais tempo a apreciar
e que a paciência ficou proporcional
à importância das coisas.

Apesar de todas as mudanças,
nem por isso gostamos menos de nós
e acima de tudo  apreciamos viver.

Envelhecer não mete medo,
o que mete medo é a demência...

Um dia olhando a imagem que tinha acabado de lhe tirar,
disse-me: "filha, porque estás a dizer que sou eu? 
Essa não sou eu, não sou assim".

Outra vez fiz a surpresa de a visitar com a mana
que ela não via há uns anos, porque mora na Dinamarca
e ela a sorrir disse-me: "ai que menina tão linda
que trazes hoje contigo. Quem é esta menina?
Para desgosto da minha irmã,
não a reconheceu, quando foi ela que a criou.

Tem dias que chora como um bebé,
só porque quer ir dormir a sesta,
ou bate palminhas e canta quando lhe damos um presente.

Tem alturas que não sabe onde está,
apesar de já ali morar há muitos anos.

Às vezes repete vezes sem conta
a ultima frase que lhe ficou na cabeça,
e atormenta-se nos medos...
Medo de cair, medo de ser abandonada, medo de comer,
medo de andar, medo de tudo...

Há uns anos que sabemos 
que a mãe Helena tem Alzheimer 
e que a doença é progressiva
e lhe vai roubando a identidade.

Ainda me reconhece e ao mano Francisco,
porque a visitamos mais vezes.

Nos dias bons, como o de ontem, 
porque se recusa a sair, 
descrevo-lhe o mar... 
tão azul esverdeado, calmo como um lago,
tão lindo... que a mãe iria adorar poder vê-lo
e ela aceita ir passear.

Rouba umas horas à sua loucura
e fica ali sentada a olhar o mar
e a dizer : "é lindo como tu disseste..." 

Um dia destes ela não saberá quem somos,
mas triste mesmo
é ela não saber quem é.

Envelhecer não mete medo,
mas a demência aterroriza...

Benvinda Neves